quinta-feira, 10 de julho de 2025

Who Killed Captain Alex? (Quem Matou Capitão Alex?) Primeiro filme de ação de Uganda

Quem Matou o Capitão Alex?


Diretor: Nabwana Isaac Godfrey Geoffrey (a.k.a. Nabwana I.G.G.)
Elenco: Kakule William, Sserunya Ernest, Bukenya Charles, G. Puffs, Kavubu Muhammed, Kasumba Isma, Faizat Muhammed, Nakyambadde Prossy 
País:
Uganda
Duração:
71 min 
Ano:
2010

Como post inaugural do “Os Melhores Filmes do Mundo”, sinto me na obrigação de trazer aqui o filme que mais tenho afeto e carinho quando se trata de obras indepedentes. O filme que não da tapas de pelica, mas sim, rajadas de metralhadora em holywood quando se trata de sétima arte. Amor, paixão, perseverança, comunidade e muita ação mortal sem freio. Todos esses adjetivos são poucos para descrever “Who Killed Captain Alex?”

Filme cunhado literalmente pelo trabalho e suor de Nabwana Isaac Godfrey Geoffrey (IGG), na comunidade chamada wakaliga, situada em kampala, Uganda. Nesta terra aonde todos sabem lutar kung fu, nasceu não somente um grande meme que se alastrou por toda internet no começo dos anos 2000, mas o início da carreira cinematográfica de Isaac.

Isaac

Diria que é impossível citar e analisar aqui o filme e não associar todo o processo criativo e trabalho árduo do time e de Isaac. Então dividiremos em duas partes, iniciando com a história de Isaac, e como revolucionou o cinema africano.

Numa situação análoga, ou quiçá pior do que as partes mais pobres de nosso país, Isaac cresceu em um local sem nenhum tipo de implementação urbana digna, e, eventualmente, foi obrigado a largar a escola. O que ele nunca largou foi o hábito de entrar escondido nos cinemas para ver filmes de Buster Keaton e Bruce Lee, os quais lhe inspiraram a trilhar o caminho que hoje segue.

Por anos Isaac trabalhou vendendo tijolos, fazendo bicos aqui e ali, e eventualmente juntou dinheiro suficiente para pagar 1 mês do curso de edição cinematográfica, curso esse, com duração de 6 meses, e uma câmera usada. Quatro dias depois de intensa filmagem e edição, nasce seu primeiro filme junto com sua produtora, wakaliwood.

Bem Vindo ao Mundo do Cinema de Uganda

É impossível escrever aqui sem se delongar, mas wakaliwood não só conquistou fãs ao redor do mundo inteiro, como construiu uma comunidade. Hoje, com apoio de muita gente online através de patreon e demais financiamentos coletivos, Isaac investe não só seus recursos nos seus filmes, mas também em toda wakaliga.
 
Desde sua escola de atores jovens, contando com refeição garantida todo dia e aulas de inglês, a até enviar diversos atores em colaboração com a china pra treinar kung fu. Há de se respeitar este homem. Para o que muitos possa parecer brincadeira e somente filmes amadores, é levado muito a sério pelos atores, e pelos novos diretores que vem surgido em Uganda graças a Isaac.

Parte do elenco convidado à China para treinar

Os Vídeo Jokers

Antes de entrar nos méritos da review do filme, preciso lhes introduzir a um fenômeno incrível das salas de cinema de Uganda. Algo que você pode estranhar e odiar de início, mas aprende a amar, é a inclusão do video joker. O vídeo joker torna-se praticamente um novo narrador do filme, transformando até pra melhor algumas cenas. 

O homem atrás do microfone
Em prática, funciona assim. O VJ ao longo do filme faz seus próprios comentários e todo tipo de inserção maluca e non sense em toda cena que achar necessário. O porque disso existir até aonde eu sei é pela dificuldade de muitas pessoas em lidar com o inglês (Embora uganda seja uma ex-colonia britânica, as linguas originarias ainda são mais presentes na população), em não conseguir entender a legenda ou a dublagem do filme. 

Então não se assustem ao ver os filmes pela primeira vez, não tem nada de errado com seu arquivo, pelo contrário, VJ Emmie (Video Joker que trabalha com Isaac) é parte crucial da experiência

Afinal, quem matou Capitão Alex?

Com um título que te instiga a saber quem matou o tal capitão Alex, temos aqui uma obra que não pode deixar de ser vista por amantes de filmes “Trash”. A trama, que tem como premissa as forças policiais de Kampala tentando lidar com uma gangue intitulada “Tiger Mafia”, não se preocupa nunca a responder a tal pergunta.

Capitão Alex é o homem, é a lenda, é a solução pra toda corrupção e violência causada pela mafia e seu líder, Richard.

Capitão Alex, o Bradock de Uganda

Nas primeiras cenas do filme você nota que Isaac e seus atores utilizam um tom jocoso e sarcástico pra própria condição e local que estão filmando. Quer um elemento de roteiro mais genial que esse?

Infelizmente, nenhum alemão foi canibalizado durante as produções do filme

Capitão Alex encontra uma força policial totalmente desestruturada. Seus soldados não tem disciplina, não tem nenhum treinamento, e pra piorar, o delegado que recebe propinas pra manter assim a situação.

Antes do filme completar 10 minutos de duração você já consegue sentir a epopeia que lhe aguarda. Uma luta no bar que começa sem pé nem cabeça, gente jogando tinta dentro de copos um nos outros pois a agua é cara demais em Uganda pra ser usada, e sem corte ou transição nenhuma, uma sequencia de cenas dos citados soldados mergulhando no esgoto.

 

Absolute Cinema


Sim, literalmente no esgoto
O esgoto, aliás, parece ser o único campo de treinamento viável. O que é compreensível, visto que a Tiger Mafia está armada até os dentes com metralhadoras de brinquedo e sons de tiro que parecem ter sido gravados no quintal do diretor com duas pedras e um balde velho.
 

E como se não bastasse, somos agraciados com a presença da verdadeira estrela do filme: VJ Emmie. Um narrador que não tem tempo pra sutilezas. Ele está ali pra gritar no seu ouvido, explicar o que você acabou de ver, fazer piada com o que está prestes a acontecer e repetir “Movie Movie Movie” como um mantra sagrado.

O roteiro é uma sugestão. A continuidade é opcional. A edição, uma experiência mística. Personagens aparecem e somem com a mesma facilidade com que são assassinados ou esquecidos. Diálogos? Apenas quando absolutamente necessários. E mesmo assim, a atuação se mantém fiel à proposta: intensa, confusa e com muito grito.

O primeiro ato continua, e somos lançados em um tiroteio absolutamente caótico entre a Tiger Mafia e os chamados Super Soldiers. A palavra “super” aqui não é usada de forma leviana. Esses soldados lutam kung fu, e todos os seus movimentos são descritos pelo VJ como: “Super Kick” “Super Fight”.  É o caos elevado à arte.

 

A vida tá tão difícil, que até o homem aranha teve que se render ao crime


Mas talvez o aspecto mais impressionante de toda essa experiência audiovisual seja a coreografia. Os movimentos são tão perfeitamente sincronizados que você não acredita que um filme com um orçamento de 200 dolares tem cenas de ação com takes contínuos e movimentos reais de kung fu.


Se você preza por sua vida, nunca arranje briga em Uganda

O filme prossegue e você se depara com a gloriosa cena de Richard desapontado com a inutilidade de seus mafiosos. O ambiente é tenso, e o que entra em cena? Uma flauta de pan tocando “Kiss From a Rose” do Seal. Sim, você leu certo. Nada grita tortura psicológica mais do que uma balada romântica dos anos 90 executada numa flauta de feira peruana.

Falando em tortura, há também uma sequência inesquecível em que uma jovem é severamente punida por um crime gravíssimo: assistir filmes de Nollywood. Um choque cultural que transcende qualquer fronteira, onde a rivalidade entre indústrias cinematográficas vira motivo de punição em forma de tapas, puxões e muito julgamento. Uganda versus Nigéria num embate que ninguém pediu mas todos agradecem por existir.


Assistir filmes nigerianos é crime inafiançável em Uganda 


Capitão Alex morre. Sem aviso, sem explicação, sem drama. Simplesmente aparece alguém dizendo que ele foi assassinado. E é nesse momento que o título do filme entra como uma piada interna. Quem matou o Capitão Alex? Não sabemos. O filme também não. E o mais maravilhoso: ele não está nem um pouco preocupado em te dar essa resposta. A morte do protagonista se torna uma espécie de lenda urbana dentro da própria trama. 

Enquanto isso, Richard, o grande vilão e líder da Tiger Mafia, entra em colapso. Seu irmão é capturado e ele reage da maneira mais razoável possível: atira em uma de suas esposas. Não, não é uma figura de linguagem. Ele realmente puxa uma arma e atira nela por não ter sido capturada no lugar de seu irmão

 

Que entrega, que cena.

No meio desse pandemônio, surge um mercenário russo. Ou melhor, alguém que o filme diz que é russo. Ele aparece, tem falas soltas, e desaparece como veio. Nenhuma explicação. Nenhum motivo. Nenhuma conclusão. 

E ai que,em minha opinião, o filme atinge sua curva dramática, e nos apresenta com um lendário personagem, Bruce U. O Bruce Lee de Uganda. Que coincidentemente é irmão do falecido capitão, e busca investigar o que de fato aconteceu.

 

Se você achava o Bruce Lee foda, é porque não viu o Bruce U

Uma ou duas lutas depois, chegamos ao clímax, e se você esperava não se surpreender com o filme, a cena de um helicoptero esmagando um prédio é o ápice do CGI. Os 15 minutos finais do filme só podem ser descritos como um caos generalizado. 

A invasão dos soldados na base principal da tiger mafia é uma sequencia de cenas que incluem: Soldados atirando e se pendurando em cipós, richard derrubando o helicóptero citado com seu rifle e atores que morrem umas três ou quatro vezes de forma sequenciada, enquanto VJ Emmie te lembra que esta assistindo ao filme chamado Who Killed the Captain Alex.

Os helicópteros em Uganda são feitos de titânio


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Who Killed Captain Alex? (Quem Matou Capitão Alex?) Primeiro filme de ação de Uganda

Quem Matou o Capitão Alex? Diretor: Nabwana Isaac Godfrey Geoffrey (a.k.a. Nabwana I.G.G.) Elenco: Kakule William, Sserunya Ernest, Bukeny...